ouvi nessas esquinas...

ouvi nessas esquinas...

J.

Quantas respirações são precisas para fazer-te morrer na minha boca?



A.


Quando eu for grande, quando eu for grande vou sair daqui e vou encontrar a minha mãe e ela vai fazer um colar com pedrinhas daquelas que brilham daquelas que há no mar onde ela está e com o meu colar ao pescoço nunca mais me perco no escuro. O meu colar vai matar o escuro. Quando eu for grande mato o escuro.
(...)
Quando era pequeno, quando era pequeno tinha medo do escuro e amava a minha mãe. Acreditava que um dia ia encontrá-la que ela um dia me achava. Pensava que era possível sufocar o escuro num colar de pérolas, lentamente, até desaparecer. Quando era pequeno ainda não sabia que para além do escuro só existe um mar de nada e que a puta que me pariu só foi mãe quando se afogou no meu peito e deu à luz a minha sombra.


S.

(...)
Alguém se oferece?
Não?! Então escolho eu!
Tu!
Levanta-te.
Levanta-te! Não lamentes a tua pouca sorte! É só uma merda duma pistola encostada à tua bela cabecinha, quase parece um beijo, uma carícia, comparada à faca na garganta que me esperava ao acordar para mais um dia de merda a juntar-se a todos os outros dias de merda nesta engrenagem da grandiosa máquina de fazer merda que é minha vida! Vá, não tenhas medo... não sabes que o medo é um dos mais antigos instintos que se conhece do ser humano? É como a foda, mais antigo que o próprio homem! Foda e medo! Que bela parelha! E não sabe bem, foder? Foder sempre e mais, e mais e mais! Foder todos muito bem fodidos, até não poder mais! O medo então... aquela cegueira que todos conhecemos tão bem, que ataca sempre sem estarmos à espera, que não nos larga, que nos persegue, o nosso mais fiel companheiro... Foder e temer, este é o grande segredo da vida! Acabei de perceber o grande mistério da puta da vida! Tens que escolher entre a foda e o medo! Ou fodes ou temes! Ou fechas os olhos e fodes tudo e todos que te aparecerem pelo caminho ou deixas que o medo te cegue e acabas por ser fodido por alguém... E ninguém gosta de ser fodido, todos querem foder, mas ninguém gosta de ser fodido. Podia ter sido um novo messias! Revelar a verdade a todos aqueles que acreditam, coitados, em verdades ditas absolutas e correctas, tipo, o amor e a igualdade... E todos compreenderiam as minhas palavras, e seguiriam os meus mandamentos, bando nómada de fornicadores e cobardes, e tudo seria muito mais fácil, porque ninguém iria viver na ilusão de encontrar a terra prometida, fértil e rica onde abundam florestas exuberantes e palácios majestosos, onde há abundância de comida e bebida, onde não existe espaço para tristezas e misérias, onde tudo é perfeito e simples, e onde só existe paz e felicidade...! Felicidade... a maior mentira que nos impingem desde que somos pequenos. Queriam criar uma raça perfeita, iludida e no entanto criaram amputados e leprosos. Olhem bem para mim! Olhem bem para ele! No fundo não existe qualquer diferença...! Somos o produto duma máquina defeituosa, somos apêndices desnecessários, pedras no sapato de um deus que não nos ama, não nos compreende, não nos ouve, não nos vê! E ainda tentaram convencer-me de que ele tinha cá posto um filho que supostamente morreu por nós, pela redenção dos nossos pecados! Puta que os pariu! Mentirosos!
Eu sou o meu deus, e sou o filho que ele pariu, alucinado, e morro todos os dias uma morte dolorossíssima que não escolhi para mim!
(...)

...

(Por e para V.)
...
Não havia mais nada a dizer. A porta fechou-se e lá fora ficaram quietas as árvores e as ruas abandonadas pela tia, uma mulher imensa, ruiva de cabeleira encaracolada e pele sardenta. Uma mulher altiva e rude que as mal tratava fisicamente com um chicote velho, como uma cauda de macaco morto a tiro. As divisões surrealistas da alma das crianças velhas, e os cobertores que cheiravam a mofo e a fumo de cigarros apagados nas costas e nas pernas peludas.

Gritava por vezes:

- Teresa! - Mas Teresa não respondia. Muda no seu silêncio virginal, mas cheio de sangue a escorrer pelas duas pernas abertas, escancaradas fazendo adivinhar a sua ostra, já sem pérola, mas brilhante e húmida e morna, treme por dentro da pele, por detrás da superfície da pele. Olho para o lado, existe uma esquina onde durante anos esperou por ele. Fizesse frio ou calor, lá estava, esperando. Olhava para a multidão adivinhando o seu rosto. E sempre se desiludia, sempre! Ficou assim para sempre. Para sempre? Sempre é sempre muito tempo, e indefinido para mais… Por ventura, serão as sombras verdes que punha nos olhos? Ou as pestanas postiças mal colocadas? Não. Era apenas o seu olhar, luz vaga no quarto ao lado, ainda os recortes de pessoas que passam, e cá dentro a mão no lençol de flanela amarela. Sempre gostou da sensação da flanela junto ao seu corpo frio e magro, pode-se mesmo dizer ossudo. Existem sempre reticências num ponto final.

Simone




Cheguei às 3 da manhã.
Levei as chaves à porta e demorei a encontrar a ranhura, estava escuro e estava tonta. Percorri o corredor até à sala e caí no sofá. Ainda ouvia o zumbido das batidas musicais ressoarem dentro da minha cabeça. Fiquei assim, encostada às almofadas, o tempo suficiente para borrar os tecidos com a minha saliva, que caía da minha boca semi aberta, e alguns laivos de batom, daquele que ainda sobrava, gretado, nos meus lábios ressequidos. Levantei-me de repente, obrigando-me a reagir contra a inércia do meu corpo, e decidi que o que eu precisava era de me libertar de todas as roupas que me sufocavam a pele.

Tirei os ganchos e soltei o cabelo.
Tirei o colar, os anéis e as pulseiras.
Tirei o vestido.

Tirei o soutien, as cuecas.

Fiquei de sapatos, saltos altos e finíssimos, uma verdadeira câmara de tortura ambulante. Mas no alto dos meus stilletos, nua e sem qualquer pudor, caminhei lentamente até à sanita, e assim fiquei, sentada, esvaziada e nua. Como sempre acontece, a minha cabeça arrancou a mil à hora, perdida em pensamentos deslumbrantes que depressa substituía com pensamentos degradantes, que facilmente perdiam o rumo. É uma inspiração confusa, pensar nas coisas da vida dentro de uma casa de banho. Especialmente depois de uma noite a dançar ao som de margueritas e ao sabor de transe psicadélico. No meio das tarefas agendadas para o dia que se aproximava e do enjoo natural que fazia ponderar nunca mais misturar álcool e drogas (pelo menos até à próxima festa), fixei-me nos meus sapatos, nos meus pés curvados para dentro, como uma menina arrependida. Eram lindos, os meus sapatos vermelhos. Eram vermelhos, de bico redondo e saltos de 11 centímetros, muito vintage. Muito porno.



Imagino-me longe daqui, uma vida alheia, onde já não estou sentada numa sanita, mas numa cadeira daquelas de realizador. Na minha fantasia, sou uma estrela de filmes pornográficos, e espero pelo primeiro take da tarde.


O rapaz com quem vou contracenar também está à espera que o efeito das drogas endureça ainda mais o pénis, e eu aguardo, nua e de pele oleada, sentada na minha cadeira.


Apago o cigarro com o salto do meu sapato. Adoro acertar à primeira com o salto no coração do cigarro moribundo, e esmagar-lhe a vida cujo último fumo teima em subir pela minha perna. Como uma carícia quase quente. Dá-me pica para o que se segue.


Antes de fazer filmes “eróticos”, sempre questionei o bom gosto do uso de sapatos de salto alto pelas actrizes.
Quem é que fode calçado? Que especial gosto pode ter a visualização de uma mulher nua de pernas abertas, completamente devassada de sexo, completamente exposta, com excepção aos pés, sempre cobertos de sapatos de salto alto?


Percebo o allure que uma menina pode ter de saltos altos e lingerie, mas porquê esta fascinação por ver mulheres com sapatos em filmes porno? E parece que quanto mais altos os saltos, melhor, quanto mais rasca for o material, melhor, quanto mais plásticos e transparentes, melhor…


Os meus são vermelhos e o que eu sei, é que, neles, fico maior, sinto-me mais corajosa, são uma espécie de extensão de um alter-ego que me permite fazer tudo, arriscar tudo.


Sou uma versão mais poderosa de mim própria, dentro dos meus sapatos de salto alto.


Toca lá fora o apito que chama todos os participantes ao set.


Cravo o salto em mais um cigarro. Levanto-me. Olho-me no espelho do camarim, e vejo-me nua. Sinto-me protegida e mais bela que nunca, do alto dos meus sapatos.


Volta a tocar lá adiante.


Não para de tocar o som irritante despertador.



Eram 7 da manhã quando despertei com o zumbido atordoante, repetido, repetido. Atirei a única coisa que, no sono, encontrei por perto, e ainda dormente, segui a trajectória do voo do meu sapato. O som parou quando o salto embateu no aparelho. Abro mais os olhos. Estava nua, caída na chaise-longue, as minhas pernas abertas, escancaradas contra o espelho. O cabelo desalinhado, os restos de maquilhagem esborratados nos olhos, a boca seca. E o sapato ainda calçado, única testemunha presente, resto da noite que não me abandonava. Levantei-me e olhei, fixa e atentamente para as curvas denunciadoras à minha frente. O espelho do boudoir devolveu-me uma imagem maior, mais longa, mais distante, como se vê nos sonhos. Era como eu, um pouco mais desequilibrada por faltar o outro elemento do par, porém, mais sedutora, mais essencial. Quis recordar-me assim, na corda bamba entre a realidade e a fantasia, numa imagem de plenitude e beleza que brindava à decadência e bebia directamente da boca da luxúria.
Podia ser da ressaca, que não me deixava encarar com verdade a luz da minha pele, mas algo me diz que o segredo morava nos arranha-céus vertiginosos dos meus sapatos vermelhos.

M.


aperta-me
contra a parede


aperta-me
a almofada na cara
aperta-me
a boca na tua
aperta-me
o peito ofegante
aperta-me
o suor na barriga
aperta-me
os pulsos nas costas
aperta-me
o pesçoco sufocado
aperta-me
entre as pernas
aperta-me
os braços apartados
aperta-me
os cabelos entre os dedos
aperta-me
os dentes na pele
aperta-me
com cuidado
aperta-me
sem pudor
aperta-me
sem medo
aperta-me
a dor
liberta-me...



Dita

Entra.
Senta-te.
Quieto.


Falas quando eu disser. Se eu quiser.
Vais ouvir tudo calado. Obediente. Quieto. Atento.
Mesmo que saia deste quarto, tu ficas no teu lugar.

Esperas.

Como um cão de guarda. Ou de colo.


Se voltar a entrar aqui, não sais do teu lugar. Não olhas para ver se sou eu.
Ficas imóvel.
Quieto.

Se me apetecer dou-te festas.
Se me apetecer dou-te pontapés.


Não te mexes. Nem um esgar de olhos.
Nada.

Dou-te de beber se achar que mereces.
Dou-te de comer se achar que precisas.

Limitas-te a estar, já que não és.
Não és para além da minha vontade.
O meu desejo é o único veículo da tua existência.
Vives porque eu digo.
Morres se eu disser.
Desapareces.
Dissolves-te.

Não pensas.
Não falas.
Não vês.

Aqui dentro de nada te vale que guinches os teus escárnios e vociferes a tua estupidez, de nada valem as tuas ofegantes tentativas para não te engasgares no teu próprio vómito.
Patética e miserável, qualquer tentativa de escape ou revolta.
Fica mal teimar em vontades próprias quendo se é desprovido de espinha dorsal e de pensamento inteligente.
Não tens identidade, és menos que sombra.
Não olhas como igual, baixas os olhos na minha presença, reduzes-te a um canto frio e húmido de uma parede esburacada pelo tempo corrosivo.
Aqui és anónimo.
Mas não porque o quiseste, não porque te preferes esconder para que te não descubram.
És anónimo porque assim te baptizo.
Porque não és ninguém.
Nada. Nem nada és.

Nada.


De nada.

Clara


acabei de morrer
mesmo agora, ainda agora respirava, sufocava
morri engasgada no meu próprio vómito
à minha volta, muitos corpos desconhecidos
o meu, inanimado, é só mais um na massa disforme
vejo-me
miro-me
assim
prostrada
ninguém deu por nada
todos se apagaram entre os delírios da droga e dos fumos
parecem mortos
todos
quietos e aberrantes
criaturas grotescas e belas na sua perdição
nunca pensei morrer assim
neste excesso de nada
mas sempre o soube e sempre o desejei
aqui
onde estou agora, distante e amoral,
sou mais clara
sinto-me mais real do que nunca
aqui não há tempo
não há prazer nem dor
imagem curiosa a que se vê do meu altar
as linhas brancas, o meu reflexo espectral nos espelhos onde se espalham
as cordas e as manchas de sangue
as mordidelas marcadas nos ventres
as feridas e o sangue nas pontas das laminas afiadas
os cabelos e as peles misturadas
os vibradores que ainda insistem em trabalhar onde só existe o sono
a rapariga que fala a dormir e chama pela mãe
o homem que adormeçeu com um pénis na sua boca
o absinto espalhado pelo tapete, a jarra partida e os cacos nos calcanhares de um velho
as notas estrangeiras e os odores orientais do icenso misturados com os restos da orgia
o relógio que nunca pára, nunca pára, não pára de avançar
eu sem tempo presa numa eternidade
olho uma vez mais para tudo
e abandono o corpo da puta que fui
e como puta que sou
abro bem as pernas para receber o meu inferno prometido

Solange

Isso!
(só mais três)
... mais... mais...
(ninguém pode saber)
... mmm...
(não chores o miúdo o que estará o miúdo a fazer agora na escola já deve estar na escola)
Ai!
(deve estar na escola é quase hora de almoço o que será que a minha mãe lhe preparou será que a comida ainda está quente Merda não dei comida ao gato já só faltam mais três e acabou)
Sim! ... ai... sim... mmm...
(era mais fácil se o miúdo não tivesse chorado é mais facil se não chorar não chores só faltam mais três será que o gato tem fome tenho fome dói-me o estômago a minha mãe não pode saber ninguém)
Assim... mais fundo... mmm, isso! Mais! Isso!
(filho da puta vem-te de uma vez por todas já me dói o cu foda-se os meus joelhos puta de alcatifa se a minha mãe me visse agora que horas serão merda dói-me o corpo todo será que se notam as nódoas negras merda de maquilhagem barata não chores agora não estragues tudo sorri)
Fode-me caralho! Fode-me mais! Isso! ... mmm...
(se ao menos ficasse com o dinheiro)
... mmm...
(era um anúncio pequeno prometeram-me dinheiro trabalho Europa ía ser modelo ía ser uma estrela o miúdo chorou tanto a minha mãe se ela me visse agora não chorou ficou quieta e acenou Adeus eu não olhei para trás não olhes para trás não decores as caras deles fecha os olhos e geme)
... estou-me a vir...
(a miúda romena parece de confiança chegou faz uma semana está mais assustada do que eu se ao menos percebesse o que diz podíamos fugir juntas se nos apanham matam-nos será que alguém deu de comer ao gato filhos da puta ninguém quer saber do gato se não for eu morre)
... mmm...
(será que ainda se lembra de mim já não consigo recordar os traços da cara vem-te cabrão apagam-se com as horas mas sei o cheiro da pele nunca se esquece o cheiro da cria)
Vem-te no meu cu!
(ninguém pode saber ninguém vai saber acabo com isto eu juro que acabo fujo ou mato-me mas acabo com esta imundice estou tão cansada não aguento mais não aguento mais não aguento)
... mmm, mais, ai, mmm... Isso, vai!
(que vergonha não comeces com merdas engole a angústia e sorri faz de conta que és actriz e vais ganhar muito dinheiro faz de conta que é um filme de culto europeu onde todos se fodem vais ganhar um cesar acho que estou a deitar sangue merda dói-me tanto cabrão filho de uma grande puta um cesar um oscar)
... ai agora na cona, fode-me na cona... Enfia todo!
(que emoção nunca pensei chegar aqui queria agradecer ao meu realizador a oportunidade que me deu este papel foi um previlégio para mim representar ao lado de nomes tão sonantes será que já é de noite não há janelas neste buraco ninguém me vê obrigada à minha mãe que sempre me apoiou queria dedicar este prémio ao meu filho o miúdo mais lindo do mundo e a Deus que tantas bençãos me deu nesta vida só mais três calma)
Na minha boca? Sim claro, vem-te na minha boca...
(mais um que gosta de se vir na boca merda odeio o sabor é pior que comer merda será que o miúdo anda bem alimentado claro que sim a minha mãe tira da boca para alimentar o neto só espero não ter que engolir a dos que faltam tarados do caralho eu não aguento mais aguentas sim)
... mmm...
(aguentas senão morres tenho que tentar a romena tenho que conseguir falar com ela se formos espertas escapamos daqui ainda não deve ser hora de almoço na escola tenho medo a outra de são paulo nunca mais apareceu será que escapou dizem que foi encontrada morta num pinhal mas eu acho que é só para nos meter medo eu tenho tanto medo o meu filho será que volto a ver o miúdo merda veio-se engole faz de conta que é doce de leite só faltam três falta pouco calma calma tenho frio)

Helena

Já vai para 35 anos a levar com ele.
Devo avisar, desde já, que gosto. Não poderia fazer mais nada na vida que não fosse levar com ele.
Desde os meus 13 anos que assim é, e mesmo em criança refugiava-me no palheiro com as minhas primas e os meninos que viviam nas barracas ao lado da minha casa. Passavamos horas a imitar os beijos que viamos nos filmes, e o prazer que eu sentia na altura, nunca mais voltei a ter. Nunca fui tão sexual como quando era apenas uma menina.
Ainda carrego com emoção esses meus despertares, e se fechar os olhos, ainda consigo sentir as línguas pequenas e atrapalhadas percorrerem o meu corpo.
Já adolescente, descobri que, afinal, o coração não mora no peito, como ensinam na escola, mas escondido entre as minhas pernas. Era uma sensação única, essa de carregar os batimentos descontrolados do coração dentro da vagina. Comprimia-me, como se tivesse medo que o coração caísse, e depressa descobri que essas contrações me levariam a outras muito maiores e incontroláveis.
Foi no meio de uma aula que tive o meu primeiro orgasmo.
Ninguém percebeu, nem a menina com quem partilhava a escrivaninha.
Rocei-me em mim própria, apertando-me por baixo, espaçadamente e sem demoras.
No momento em que me vim, senti-me desfalecer por uns segundos, o ar faltou-me e senti as minhas bochechas a explodir. Ainda não sei como consegui impedir-me de gritar, mas a verdade é que não emiti qualquer som, nem deixei que percebessem o que quer seja.
Mas as lágrimas, não as impedi. Simplesmente saltaram-me das órbitas, até pareciam que levavam os olhos com elas. Nesse preciso momento percebi que o meu lugar não era ali e para espanto de todas, saí a correr da sala.
Falei com os meus pais e ofereci-me para ir para a Capital, onde poderia facilmente arranjar trabalho a servir numa casa. O dinheiro era pouco, e aceitaram sem discussão.
Parti para cá com onze anos.
Saltei de casa em casa, não conseguia manter-me em lugar nenhum, em parte devido à minha rebeldia. Mas não aceitava o facto de ser tratada abaixo de cão, passar horas e horas sem comer, alimentar-me apenas se sobrassem restos das refeições dos patrões e limpar a merda dos outros, esfregar cueiros cagados, tapetes, alcatifas. Não era assim que queria ser lembrada. Se tivesse que ganhar a vida curvada, nunca seria a servir os ricos.
Na última casa onde servi, vivia uma família burguesa. Havia espelhos e cabeças de animais mortos espalhados pelas paredes. O senhor gostava de caçar e até já tinha ido a África caçar antílopes e rinocerontes. A biblioteca era a sua caixa de tesouros, onde guardava todas as relíquias das suas viagens e os louros dos safaris. As velhas glórias sem vida pintavam a sala de cores exóticas e partilhavam o espaço com os retratos dos antepassados e da senhora que, para grande infelicidade do senhor, morrera ao dar à luz o quinto filho do casal.
O senhor era agora uma sombra sem vida, um fantasma velho e gasto pela dor.
Deve ter sido isso que me atraiu nele, esse abandono inconsolado.
Não falava, não sorria, comia pouco, bebia muito. Nunca provocou escândalos nem confusões, nunca saía de casa.
Refugiava-se na biblioteca e bebia, contemplando a nostalgia do passado que ali habitava.
Foi assim que o fui encontrar. Sozinho, sentado na grande poltrona. A cabeça tombava, e o copo caído espalhava o licor pelo chão. Dormia como uma criança pequena. O último filho tinha casado e encontrava-se agora completamente só. No espaço de dois anos, todos tinham abandonado o velho casarão.
O senhor sucumbiu à bebida e à celebração dos outros. Sucumbiu à tristeza.
Durante dois anos permaneci naquela casa, onde me sentia deslocada mas com alguma liberdade para me dar a alguns luxos. De noite, escapulia-me para o sotão onde o senhor guardava os vestidos da mulher, e passava horas em frente ao espelho, vestida de senhora, mascarada de dama rica. Imaginava-me em grandes festas, perfumada e de lábios vermelhos, bebendo champanhe e comendo aquelas aves de caça.
E depois imaginava-me a chegar ao casarão com o senhor, e subir a escadaria a rir-me escandalosamente, enquanto o senhor me agarrava as mamas e me puxava pela cintura para junto de si e me fazia sentir o sexo entesado através do meu vestido de seda.
Masturbava-me enrolada nas roupas e nas jóias da senhora, escondida no sotão, no segredo da noite. E foi numa dessas madrugadas, que desci à cozinha e o encontrei na biblioteca.
Vi a luz que vinha de lá e caminhei descalça pela mármore fria. A imagem que vi encheu-me de pena e ternura. O senhor completamente frágil e abandonado na poltrona.
A minha pele ainda estava quente das minhas fantasias. Aproximei-me devagar, silenciosamente.
Toquei-lhe no ombro. Não sentiu. Um arrepio de excitação percorreu a minha espinha e alojou-se no meu estômago. O meu peito explodia de antecipação e a minha barriga ainda doía de prazer.
Não sei como nem porquê, mas intuitivamente as minhas mãos ganharam vida própria e, cega, nada mais havia à minha frente. Só o sexo do senhor. Escondido, depressa passou para a minha mão. Maravilhada, com a sua cor, as veias, toda eu tremia de espanto.
O senhor dormia, completamente apagado. Na minha delicadeza, nada fiz para o despertar, e com cuidado e sede tomei-lhe o sexo ainda mole na minha boca.
À medida que enrijecia, o senhor despertava do sono pesado, e ainda confuso e enebriado, tentava decifrar a imagem com que se deparava. Ajoelhada, olhava fixamente nos seus olhos, mas não parei. Estava extasiada, presa num transe sem pudores nem limites. Engolia-lhe o sexo na minha boca ainda pequena.
Ele ficou estarrecido, quieto. Consegui perceber a perplexidade com que me olhava, a mim, a criada da província ainda menina, ainda virgem, naquela posição, prostrada a seus pés. Há muito que não conhecia uma mulher, fechado que estava para o mundo após a morte da senhora. Mas ali ainda havia vida.
Enquanto agitava firmente o seu caralho com uma das mãos, tocava-me com a outra. Talvez tenha sido surpreendente para ele esta visão, mas homem que era, não resistiu e levado pela carga do momento afastou a minha boca e levantou-se. Assustada, tremia de medo do que me esperava, mas não conseguia parar de me masturbar. Ficou assim, de pé, a contemplar-me.
Depois, deitou-se sobre mim, abriu-me as pernas e sem qualquer cuidado especial entrou em mim.
Os olhos tristes duma gazela espelhavam o nosso reflexo, e é essa a imagem que guardo desse momento.
Não me doeu. Não sangrei. Não me vim.
Mas nesse preciso momento decidi que isto que acontecera marcaria o resto da minha vida.
Tinha 13 anos.